Tinha a estranha mania de começar seus textos com as seguintes palavras: A verdade é que… Nunca havia parado para tentar identificar a origem de tal expressão ou por que motivo obscuro as elegia mecanicamente para iniciar cada uma de suas histórias. Era possível que viessem de uma certeza imbuída em sua mente de que a escrita o levava sempre e invariavelmente à verdade. Ou talvez de um simples delírio egocentrado de que ele era o bastião da realidade. Poderia ser um cacoete literário, uma muleta, como se diz, que o ajudava a disfarçar sua falta de talento. Ou ainda…


Moro numa caverna no Jardim Botânico. Águas escorrem pelas paredes por boa parte da noite e nas primeiras horas da manhã. Estamos no primeiro mês do ano e os ares-condicionados dos vizinhos funcionam permanentemente, sem descanso. Não dá pra dormir sem ar condicionado numa cidade dessa, já imaginou? Sem o edredom de ganso (pluma, não pena), sem o lençol quinhentos fios? Sem o geladinho de 18 graus e três pauzinhos de vento? Não dá. Moro no primeiro andar e nas paredes húmidas e férteis crescem vastas colônias de fungos, grandes manchas de bolor escuro que tomam as quinas dos quartos…


Dois tenistas em lados opostos de um campo de batalha. Joelhos flexionados e antebraços atentos, posição de ataque com espadas em punho. Na eminência do golpe, aguardam pacientemente em silêncio, até desferirem a pancada fatal contra o seu adversário. Trovão gutural. Deixam pairar sobre o ar pequenos fiapos fluorescentes da bola, que agora perfura penosamente o espaço pesado e opaco entre eles feito de luta, calor e suor evaporado. Choque. A cada disparo e guinada de pés, mais saibro no ar, se alastrando feito fogo, criando uma neblina incandescente sobre a quadra, a arena em chamas, tingindo toda a atmosfera…


Ter um balde de água gelada jogado sobre nossas cabeças talvez seja a única sensação que consiga nos remeter às emoções explosivas da infância. A imagem do líquido glacial cobrindo a pele morna num arrepio quase nevrálgico dá vontade de gritar, pular, correr, jogar as mãos aos céus! Ou ainda, como para as criaturinhas da foto acima, de sorrir. E em seus sorrisos incontroláveis, de bater o queixo, eu também não consigo não sorrir. Sou sempre tomado pela ideia de que talvez esse tenha sido um daqueles melhores momentos da vida que passam despercebidos. Ter a foto é uma sorte…


Atravesso o Hyde Park pelos seus caminhos de areia com as mãos enterradas nos bolsos. É verão em Londres, mas faz frio às 8 da manhã desse sábado. Caminho a passos largos, não quero me atrasar. Já deve haver uma fila na porta da Serpentine a essa hora, portanto não deixo que a cantoria dos pássaros que agora acordam prenda a minha atenção. Os imensos carvalhos vitorianos por todos os lados me confundem o caminho e demoro mais do que havia planejado. De qualquer maneira, às 9 da manhã em ponto estou na entrada lateral da galeria. Para minha surpresa…

Gabriel Abreu

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