Tinha a estranha mania de começar seus textos com as seguintes palavras: A verdade é que… Nunca havia parado para tentar identificar a origem de tal expressão ou por que motivo obscuro as elegia mecanicamente para iniciar cada uma de suas histórias. Era possível que viessem de uma certeza imbuída em sua mente de que a escrita o levava sempre e invariavelmente à verdade. Ou talvez de um simples delírio egocentrado de que ele era o bastião da realidade. Poderia ser um cacoete literário, uma muleta, como se diz, que o ajudava a disfarçar sua falta de talento. Ou ainda uma crença ingênua, adquirida em um manual antigo de escrita criativa, de que um texto deveria sempre principiar de maneira marcante, com o intuito de prender o leitor. Prender o leitor, aliás, era sua obsessão. Ficava imaginando-o ávido de seus parágrafos, incapaz de largar suas páginas. Pensava em si como um alquimista explorando as propriedades viciantes da palavra. Queria para si uma legião de dependentes químicos, ser venerado. A verdade é que essa era sua principal motivação há algum tempo. Evitava admitir para si mesmo, mas já não sentia prazer escrevendo, fazia-o principalmente para os outros. Sentava-se todas as manhãs e passava as primeiras horas do dia embaralhando frases em um de seus cadernos, rasurando versos, procrastinando até ter um mínimo aceitável de linhas para publicar no blog que mantinha. Sentia então o gozo do dever cumprido e se comprazia com a convicção de que fizera sua parte para deixar o mundo mais honesto.