Moro numa caverna no Jardim Botânico. Águas escorrem pelas paredes por boa parte da noite e nas primeiras horas da manhã. Estamos no primeiro mês do ano e os ares-condicionados dos vizinhos funcionam permanentemente, sem descanso. Não dá pra dormir sem ar condicionado numa cidade dessa, já imaginou? Sem o edredom de ganso (pluma, não pena), sem o lençol quinhentos fios? Sem o geladinho de 18 graus e três pauzinhos de vento? Não dá. Moro no primeiro andar e nas paredes húmidas e férteis crescem vastas colônias de fungos, grandes manchas de bolor escuro que tomam as quinas dos quartos e consomem aos poucos os tetos e portas. No começo espalhei pedras de carvão por todos os cômodos, arejava a casa diariamente deixando todas as portas abertas. Mas eu resistia à uma força incontrolável, a mesma força das marés e tempestades, que continuou invadindo o apartamento indiferente aos meus esforços. Resignei-me a viver como um anfíbio, um molusco numa concha. Minha pele esverdeou-se e começou a secretar uma fina seiva; no espaço entre meus dedos surgiu uma frágil e translúcida membrana; não consegui mais secar meus cabelos e sentia agora uma vontade irreprimível de soltar constantemente um coaxado do fundo da garganta. Mandei cartas aos vizinhos pedindo que instalassem ventiladores de teto e dormissem de janela aberta. Falei com o porteiro e reclamei com o síndico, que colocou o problema em pauta na assembléia seguinte, mas a essa altura ninguém mais engolia sapo do vizinho chato do 102. Moro num pântano musgoso no Jardim Botânico.

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